6 de dez de 2009

hematomas. parte II.

João largou a cachaça. Largou não. Trocou o vicio alcoólico por pacotes de bibs de banana. Passou a prestar atenção na família. Doou sua coleção de antiguidades a uma creche de crianças carentes. Dormia cedo e acordava cedo. Ao menos tentava. Seguidas manhãs ele se perdia pelos lençóis de Raquel. Esta, quando despertava do sono, cheirava toda a parte da cama que recebera o corpo de João. Trepava pelo nariz. Satisfazia-se só com a lembrança dos dois ali.

Quando mais tarde se encontravam, dividiam suas peculiaridades. Não era mais apenas o sexo desprotegido e violento que prendia os dois. Havia algo novo. Algo que nenhum dos dois jamais havia experimentado. Aprenderam a lidar com o tempo e com o cotidiano. Descontruiram tudo. As paisagens, o romantismo, a tpm.

Raquel passou a beber mais e a fumar. João começou a se achar gordo. Acabaram por trocar as casas, as malas e os sonhos. Descobriram novas brincadeiras, experimentaram novas posições para que Raquel gozasse, juraram fidelidade diária. Secretamente, ele fingia dormir, apenas pra ficar mais tempo olhando pros cabelos dela, sempre cheirosos, abraçados no travesseiro. Ela, por sua vez, gostava de raspar as unhas sobre as costas nuas dele. Escrevia nelas tudo o que queria dizer e não tinha coragem.

Os dois aprenderam a não discutir. O silencio era confortante. A fala depois do vácuo, o beijo depois da distancia e o abraço depois do choro, fazia cada segundo valer a pena.

Na cama? Bom, acho que já falei.

Eram dois despudorados.

Um comentário:

Everton Merlin disse...

Lindo demais! A relação que todos um dia sonham...